sábado, 19 de julho de 2008

O dia em que fui cumprimentada pelo herdeiro do Unibanco

Pois é, eu sei que se um dia o João Moreira Salles ler isto aqui, ele vai ficar chateado. Principalmente por eu não apresentá-lo como o documentarista de talento que ele é, mas simplesmente por lembrar da sua condição de herdeiro de um dos maiores bancos do país. Mas... paciência. Não é todo dia que uma moradora de Ramos frequenta o mesmo lugar que um filho de banqueiro e nem é cumprimentada pelo próprio. (ok, ok: eu sei que estou parecendo deslumbrada. Mas, dá licença? Por um momento vou deixar o meu jeito blasé de lado)


Ontem estreou um filme que eu queria muito ver: Nome próprio. Só estava passando em dois cinemas, um deles o Unibanco Artplex, pertinho do meu trabalho, às 19h. Então, lá fui eu.


Logo no início, a noite já prometia encontros. Dei de cara com um amigo meu da facul. Mas ele estava ocupado com outras coisas e não me acompanhou na sessão, que agora tem lugares marcados. Comi pipoca, tomei um mate (fome, muita fome!) e, faltando dez minutos para o início do filme, adentrei a sala. A fileira eu achei fácil, só não saquei os números das poltronas. Perguntei para um senhor que estava na minha fileira. Ele também não sabia, mas, enfim, acabou me ajudando de certa forma e ficamos conversando. Comentou que estava aguardando uma pessoa amiga, mas que ela talvez não viesse, por conta do tráfego. E, com esse papo de lugar marcado, ele até imaginava que, talvez, a pessoa não conseguisse nem sentar-se ao lado dele, pois a poltrona já podia ter sido comprada à hora em que ela chegasse.


Falamos de outras coisas. Até que eu vi alguém subindo as escadas da sala de cinema. Logo reconheci e pensei: "caraca, olha o João Moreira Salles! Que sessão prestigiada!", quando... ele se dirige à minha fileira, cumprimenta com vivaz satisfação o senhor que conversava comigo e ele, feliz pela chegada do amigo, vira para mim e fala: "olha só quem chegou!" e, continuando para o João: "eu até estava começando com a moça aqui que esperava um amigo, que talvez não conseguisse chegar...". E o herdeiro do Unibanco sorriu para mim, com um aceno de cabeça, eu sorri de volta, sem perder a chance de pensar: "será que é para mim mesmo que ele está sorrindo?".

Mas só podia ser mesmo, pois o casal ao meu lado estava ocupado consigo próprio. Foi aí que chegou o ocupante da cadeira que ficava entre mim e o amigo do João e nossa curta relação se acabou. Mas ainda deu para ouvir um papo sobre jogo do Fluminense, decepção e uso de remédios de tarja preta.


É, crianças, tenho de confessar que senti orgulho de mim mesma. Porque eu poderia ser alguém que só assistisse a blockbuster. Alguém que só vê filmes como o Batman, que estreou ontem. Afinal, sou suburbana, filha de um paraibano com uma paraense. Mas, olha só: por sempre ter estudado, ter tido algumas oportunidades, descobri um outro mundo. Um mundo que, no Brasil, ainda está restrito a pessoas que pertencem a classes sociais mais abastadas, tanto em termos financeiros quanto culturais.

Tô chique mesmo. Não pude deixar de pensar, no entanto, no dia em que o João foi apresentar um dos seus documentários lá na ECO, a convite da minha professora Consuelo, e eu só consegui chegar a tempo do papo com ele, pois, naquela sexta-feira chuvosa, eu havia ficado duas horas em cima de um salto altíssimo, dentro de um ônibus cheio, porque taxistas, caminhoneiros ou sei lá mais o que haviam fechado a Presidente Vargas em protesto contra alguma coisa que eu já nem me lembro mais.


Tudo bem que ontem minha vida não estava muito diferente: depois de meu fugaz encontro com o herdeiro do Unibanco, dirigi-me ao ponto de ônibus, onde aguardei pelo 485 por quase 20 minutos. Não se pode ter tudo nessa vida, crianças. Mas a gente tem que ficar feliz pelo que tem.

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